quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

Um "Cidadão" chamado Lúcio Barbosa

 Um "Cidadão" chamado Lúcio Barbosa


 

Lúcio Barbosa, natural de Senhor do Bonfim, foi morador do Alto da Maravilha. Tornou-se conhecido na música popular brasileira como autor e compositor das músicas “Cidadão” e “O Profeta”, que contam com inúmeras regravações.


 

Seu grande êxito aconteceu em 1979, quando sua música “Cidadão” foi gravada pelo cantor e compositor Zé Geraldo no LP “Terceiro Mundo”, da CBS. Essa composição conheceu diversas regravações, entre as quais, as de Luiz Gonzaga, Silvio Brito, Zé Ramalho, Renato Teixeira, Elymar Santos e, em 1989, tornou-se grande sucesso no sul do país, na gravação de Wilson Paim. Foi também regravada pelo próprio Zé Geraldo, inclusive no disco “Cantoria 3”, lançado pela Kuarup.

 


 

 

Em 1992, a música “Cidadão” foi regravada por Zé Ramalho no disco “Frevoador”, lançado pela Columbia/Sony Music. Lúcio Barbosa morava em Itapecerica da Serra, São Paulo.

Faleceu no  dia 27 de dezembro de 2022, na cidade de Itapecerica da Serra-SP aos 74 anos de idade. 

 


Fonte: http://blogdoeloiltoncajuhy.com.br/site/morre-o-compositor-bonfinense-lucio-barbosa-autor-de-cidadao-gravada-por-luiz-gonzaga-e-ze-ramalho/
https://www.jornalspreporter.com.br/noticia/12284/itapecerica-da-serra-morre-lucio-barbosa-autor-da-musica-lcidadaor-silvio-brito-presta-homenagem


Curiosidades sobre a música Cidadão

O poeta baiano Lúcio Barbosa compôs “Cidadão” como homenagem a um tio que era pedreiro. A letra traz à análise, o preconceito e a discriminação por que passam os nordestinos nas grandes cidades do país, em especial os que se dedicam à mão de obra da construção civil. Foi gravada pela primeira vez pelo cantor Zé Geraldo em 1979, e alcançou enorme sucesso também a regravação feita por nosso conterrâneo Zé Ramalho.

“Tá vendo aquele edifício, moço?/Ajudei a levantar/Foi um tempo de aflição/Eram quatro condução/Duas pra ir, duas pra voltar”. O construtor anônimo das metrópoles não recebe o reconhecimento da contribuição oferecida desde o alicerce das grandes obras civis. As diferenças sociais não permitem um tratamento de respeito e valorização do trabalhador braçal. Os poderosos, os mais abastados, ficam indiferentes à sua sorte. É a exploração de uma sociedade capitalista e injusta. Pouco importam as dificuldades por que passam os operários para chegarem ao local de trabalho e exercerem seu ofício. Sequer percebem que a presença deles é feita num processo desgastante e penoso no uso do transporte público nas idas e vindas do trajeto casa/trabalho. No caso da letra da música, esse trabalhador apanha quatro conduções por dia, duas para vir e duas pra voltar para casa.

“Hoje ele pronto/olho pra cima e fico tonto/Mas me vem um cidadão/e me diz desconfiado/Tu tá aí admirado?/Ou tá querendo roubar?”. Concluída a obra, o operário contempla maravilhado o edifício que ajudou a ser erguido. Sente uma ponta de orgulho do seu trabalho. Mas eis que se surpreende com a interpelação de um cidadão, questionando porque ele estava ali, parado, observando, o prédio recém-inaugurado. Suspeita, por sua condição social de inferioridade, que sua intenção é de roubar. Essa postura, muito recorrente no nosso cotidiano, revela bem a forma como os pobres, e nesse particular os nordestinos de baixa renda, são tratados, menosprezados e humilhados.

“Meu domingo tá perdido/vou prá casa entristecido/dá vontade de beber/E prá aumentar meu tédio/eu nem posso olhar pro prédio/que eu ajudei a fazer”. Decepcionado, sente que naquele fim de semana, o seu tempo de folga “está perdido”. E procura então uma de suas poucas formas de lazer, beber. Aí já entra a constatação do alcoolismo como fuga de uma situação de sofrimento e preocupações com a própria sobrevivência e de amparo da família. Difícil entender como ele não pode sequer admirar o prédio que ajudou a construir, imagine entrar e usufruir dele como qualquer cidadão.

“Tá vendo aquele colégio moço?/Eu também trabalhei lá/Lá eu quase me arrebento/Pus a massa, fiz cimento/Ajudei a rebocar”. O compositor registra aqui novas denúncias, a participação do personagem da música na construção de uma escola em condições de trabalho das mais precárias e a ausência de oportunidades de educação para as classes menos favorecidas.

“Minha filha inocente/vem pra mim, toda contente/Pai vou me matricular/Mas me diz um cidadão/Criança de pé no chão/aqui não pode estudar”. O sonho, dele e da filha, de vê-la ali frequentando a escola, se desfaz. O “cidadão” logo lhe adverte de que “criança de pé no chão, ali não pode estudar”. Aquele estabelecimento de ensino foi construído para os ricos. Interessante que o personagem, por si mesmo, já se exclui da condição de cidadania. “Cidadão” é aquele que tem poderes para alijá-lo da sua convivência social. “Cidadão” é aquele que determina sua vida sem a oferta do que lhe é de direito: moradia digna, educação e saúde. Ele não se enxerga como “cidadão”.

Essa dor doeu mais forte/por que é que eu deixei o norte/Eu me pus a me dizer”. Dolorosamente chega à conclusão que não fez bem em vir para o sul, tentar uma melhoria de vida. As esperanças de que ali poderia ter um melhor padrão de vida para si e a família caem por terra.

“Lá a seca castigava/mas o pouco que eu plantava/tinha direito a comer”. Ainda que lamentando a penúria que vivia em épocas de seca, ele lembrava que com o “pouco que plantava” tinha garantido o que comer. Não haveria necessidade de se submeter a tanta submissão e humilhação.

“Tá vendo aquela igreja, moço?/Onde o padre diz amém/pus o sino e o badalo/enchi minha mão de calo/lá eu trabalhei também/lá foi que valeu a pena/ tem quermesse, tem novena/e o padre me deixa entrar”. A igreja como refúgio derradeiro do seu padecimento. Um local onde o seu trabalho na construção fez valer verdadeiramente o seu esforço. Ali não há proibição da sua entrada. Ali ele se integra aos acontecimentos religiosos e festivos: novenas e quermesse. Ali ele coloca nas mãos de Deus suas esperanças de que o sofrimento seja amenizado.

“Foi lá que Cristo me disse:/Rapaz deixe de tolice/não se deixe amedrontar/Fui eu quem criou a terra/enchi rio, fiz a terra/não deixei nada faltar”. Apoia-se no exemplo de Cristo, que se diz, como filho de Deus, construtor de tudo o que há na terra, oferecendo ao homem todas as condições de bem viver dela, de forma igualitária, sem diferenças, sem privilégios para uns e privações para outros.

“Hoje o homem criou asa/e na maioria das casas/eu também não posso entrar”. Ver que a humanidade deu as costas até a quem deve a sua própria existência. Nas casas falta solidariedade cristã em boa parte delas. O espírito de fraternidade que deve prevalecer entre os homens inexiste em muitos lares.

• Do livro “CANÇÕES QUE FALAM POR NÓS”.

Fonte: https://www.recantodasletras.com.br/analise-de-obras/6162120

















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